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ARTIGO: A MORTE DOS RIOS É A NOSSA PRÓPRIA

  • Foto do escritor: Nilto Tatto
    Nilto Tatto
  • há 4 horas
  • 2 min de leitura

“Meu pai remava no rio Tietê”, já me disseram alguns amigos cujas familias vivem em São Paulo há duas ou mais gerações. É um retrato triste e cada vez mais comum: cidades médias e grandes do estado de São Paulo, que cresceram às margens de rios, hoje convivem com cursos d’água invisibilizados, seja pela poluição ou canalização. Parece que naturalizamos a ausência de rios limpos, virando as costas para estas entidades que ao longo da história sustentaram o nosso desenvolvimento.


O exemplo mais simbólico é o Rio Tietê – o maior e mais importante rio paulista, fundamental na formação econômica do Estado, que já foi inteiro banhável, navegável e cheio de vida. Hoje, mesmo após décadas de investimentos, o Tietê segue marcado pela poluição, apenas na região metropolitana da capital - a contaminação avança rapidamente rumo ao interior, acompanhando a expansão urbana desordenada, o crescimento do agronegócio e a falta de saneamento adequado.


Esse cenário se repete em rios menores e córregos espalhados por todo o Estado, que recebem esgoto sem tratamento, resíduos industriais, cargas violentas de agrotóxicos e lixo. O resultado é uma população cada vez mais distante dos rios — sem acesso à água limpa para consumo, transporte, pesca ou lazer. Sem que a maioria das pessoas perceba, a dinâmica das nossas vidas mudou completamente a partir do momento em que negligenciamos nossos corpos d'água.


A situação é igualmente grave nos mananciais, como as represas de Guarapiranga e Billings, por exemplo, essenciais para o abastecer de água milhões de pessoas na região metropolitana da capital. No caso da Billings, há ainda a sua importância estratégica para geração de energia, graças a Usina Henry Borden, mas ainda assim, ambas sofrem com ocupação irregular, despejo de esgoto domiciliar, industrial e degradação ambiental, tornando suas águas cada vez mais impróprias.


O pior de tudo é que as causas já são há muito conhecidas: crescimento urbano sem planejamento, baixa cobertura de coleta e tratamento de esgoto, descarte irregular de resíduos (inclusive veneno agrícola), ocupação de áreas de manancial e falhas na gestão pública. Não falta diagnóstico, mas ação, já que a gestão do governador Tarcísio de Freitas tem sido marcada por negligência com a pauta ambiental, especialmente no que diz respeito à qualidade das águas (vide a privatização da Sabesp).


A ausência de prioridade, aliada à fragilidade da fiscalização, contribui para o agravamento da crise hídrica. Recuperar os rios paulistas exige mais do que promessas - é preciso investimento contínuo, planejamento integrado e compromisso político real. Sem isso, seguiremos tratando como normal o que deveria nos indignar: a perda dos nossos rios, que em último caso, seria a nossa própria morte.


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