ARTIGO: A derrota que não cabe no placar
- Nilto Tatto

- há 2 dias
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A derrota do Brasil na Copa do Mundo não pode ser tratada apenas como um acidente de percurso. No futebol, um time mais fraco frequentemente vence o mais forte, o que pode ser uma grande decepção para o torcedor, mas faz parte da beleza do jogo. O problema é quando a derrota revela algo mais profundo: a perda de identidade de uma seleção que um dia encantou o mundo com alegria, criatividade, improviso e coragem.
Enquanto a responsabilidade pela derrota passa pelos jogadores, não podemos eximir a FIFA de culpa pela decadência do nosso futebol, já que a entidade transformou o esporte em um grande balcão de negócios. Essa responsabilidade, no entanto, é sobretudo da CBF, que há décadas não apresenta uma política séria para fortalecer os clubes, os campeonatos nacionais e a escola brasileira de futebol. Com a qualidade dos nossos atletas, o Brasileirão poderia estar entre os campeonatos mais assistidos e valorizados do mundo. Não está porque falta projeto, falta organização, falta visão de país.
Também precisamos lembrar da incapacidade dos clubes brasileiros construírem uma liga que seja capaz de defender seus próprios interesses, valorizar o produto nacional e preservar aquilo que tornou o nosso futebol único. Sem isso, seguimos exportando commodities - adolescentes de 14, 15 ou 16 anos que assinam com clubes europeus e, quando completam 18, deixam o Brasil muitas vezes sem nunca terem atuado profissionalmente por aqui. A conexão com a torcida é praticamente inexistente, porque não construíram uma história com os clubes brasileiros.
Na Espanha, na Alemanha, na Inglaterra ou na França, nossos atletas são moldados por outra lógica, outro ritmo, outra cultura. Quando chegam à Seleção, jogam um futebol europeu com camisa verde-amarela. Até as escolinhas passaram a copiar os métodos europeus e os olheiros dos grandes clubes já não procuram o talento na várzea, no terrão ou no futebol de rua. Jogador agora se procura no mercado, desenvolvido em laboratório, pronto para ser consumido segundo padrões internacionais. É assim que morre o futebol arte, brincado com alegria, que levou a seleção canarinha a conquistar o mundo.
A maior vergonha da eliminação contra a Noruega não está no resultado, mas na postura infantil, arrogante e agressiva de jogadores que não representam mais o nosso futebol e menos ainda o nosso povo. Quando um time joga bonito e perde, pode até sair aplaudido e mantém viva a esperança, porque sabemos do que somos capazes. Mas quando o Brasil joga um futebol que não é nosso e perde, não é apenas uma Copa que vai embora, mas uma parte da nossa identidade que fica pelo caminho.













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