• Nilto Tatto

LIBERDADE PARA O MORTO?


Travestido de “defesa da liberdade”, o projeto bolsonarista de armar a população pode ter conseqüências nefastas, que vão desde a intensificação das mortes por armas de fogo até uma guerra civil. Em ambos os casos, estará na conta do pior presidente da história do País a responsabilidade pelo óbito de brasileiros por brasileiros. Sabidamente, as maiores vítimas continuarão sendo os povos tradicionais, camponeses, negros e pobres, vítimas da disputa por terras, do racismo estrutural e de uma política de Estado negligente à suas vidas.

Foto: Getty Images

Ao longo da história e por todo o mundo, o armamento da população serviu para eliminar etnias, atender à interesses ditatoriais e promover golpes de Estado, patrocinar o separatismo além de alimentar o fascismo e o nazismo. Quem acredita que ter a posse de uma arma em sua residência poderá lhe conferir maior segurança está completamente equivocado. Quanto maior o número de armas em determinada sociedade, maiores os índices de acidentes, homicídios, feminicídios e sequestros. Isso tudo sem mencionar que muitos desses equipamentos acabam nas mãos do crime organizado, aumentando ainda mais seu poder de fogo.

Institucionalmente, qualquer proposta que tenha como objetivo armar a população, configura-se como um atentado contra as polícias e as Forças Armadas. Ainda que este deputado seja à favor da desmilitarização da polícia, isso não significa, em hipótese alguma, que estas corporações devam abrir mão do monopólio da tutela sobre a violência, ou seja, da responsabilidade do Estado de combater o crime. Permitir que o cidadão seja o responsável pela segurança pública significa entregá-lo à própria sorte, ou abandoná-lo de vez.

Segundo o Atlas da Violência, em menos de 40 anos, quase 1 milhão de brasileiros perderam a vida vitimados por disparos de armas de fogo. O mesmo estudo aponta que este número seria ainda maior não fosse a aprovação do Estatuto do Desarmamento, em 2003. Quando o governo Bolsonaro tenta liberar as armas por decreto, sem debate com a sociedade, ignora que a vida é o bem fundamental que devemos defender e que não faz o menor sentido discutir a liberdade de alguém que já morreu.

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